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Capítulo XXXV: Cheiro de óleo queimado.

Diário de Gilmar de Leria Castanho, recapitulando eventos recentes que ocorreram na minha vida:

Enquanto tentava ingressar numa unidade especializada do exército brasileiro, eu recém chegado de minha pátria, Portugal me envolvi num incidente confuso e ao mesmo tempo que isso acontecia, um portal ou como dizem os cientistas um vórtice para outro mundo foi aberto este mundo parece ter saído daqueles mangás e jogos de RPG.

De dentro deste mundo apareceu uma moça muito bonita suposta deusa do amor, sexo, etc.. ela é além de bonita um tanto estranha.

Fui dado como moeda de troca para que o país que decidi servir pudesse realizar seus grandes planos de colonizar tal como fizera minha gente séculos atrás.

Compartilhando deste ideal eu servi com dignidade e prometendo meu sangue derrotei um inimigo que assediava umas de nossas colônias, matei, pois tive que matar e fiz isso por meu imperador e pela gente inocente atrás de mim.

Continuei a missão por mim dada de melhorar minhas habilidades na guerra e segui viagem nesta terra erma.

Estou em meio a outra civilização ao lado da… (minha companheira, superiora, dona porque fui dado como pagamento?) esquece, voltando ao que ia dizer estou agora frente a uma espécie de pousada, nós os brasileiros fazemos pouco tempo que aqui chegamos e sinto no meu coração que só seria possível neste momento existir e nesta região desconhecida apenas eu de cidadão súdito brasileiro presente.

Então porque estou do nada sentindo este cheiro horrível de óleo queimado…..?

????!!!!!

Gilmar termina de escrever este relato confuso e como se estivesse sido rendido começa a se virar lentamente para trás…

—QUE PORRA É E—S—S—A—?????????

Essa “porra” eram dois caminhões Mercedes—Benz modelo cabeça de gato L113 fabricadas em fins dos anos de 1970 ou inicio dos anos de 1980. Um dos veículos puxava um comprido tanque de combustível outro parecia um pau—de—arara trazendo alguns nativos de raças distintas.

Quem dirigia a carreta—tanque era um sujeito chamado Jerônimo Paes Cesacaretti de 30 e poucos anos e quem dirigia o pau—de—arara era Sérgio Paes Cesacaretti um pouco mais novo que o seu irmão.

Estes sujeitos assim que o portal foi aberto descobriram uma forma de fazer dinheiro transportando cargas e pessoas pelas montanhas e outras regiões, o caminhão tanque servia para ocasionalmente ir a Forte São Jorge comprar combustível e eles eram pagos pelos nativos em ouro e prata e com isso pagava os seus suprimentos na capital colonial ainda em obras com o governo recolhendo dos metais preciosos uma pequena taxa a título de imposto.

Surpreso Gilmar gritou:

—Que porcaria é essa? Vocês ai compraram a onde, no ferro velho?

—Quase, conseguimos em um leilão de veículos apreendidos. Respondeu um dos irmãos.

—E resolveram fazer uma grana?

—Por que não? Levamos poucas horas para atravessar essas montanhas coisa que os nativos levam pelo menos dois dias

—Quantas horas?

—Umas 7 ou 8 se tivesse uma “Anchieta” levaríamos no máximo duas horas, há mais de uma estrada e é bem sinuoso então tem que tomar cuidado mas melhor do que ir a pé ou a cavalo né?

—E a segurança? Este território está em guerra civil…

—Mas nós temos isso: Os irmãos exibiram um fuzil de assalto e uma escopeta calibre 12.

—Estão preparados então (risos).

—Falando nisso rapaz. (Perguntou o irmão mais velho). Vendo este veículo do exército, estas armas você participou do que teve recentemente?

—Sim como ficaram sabendo?

—Ouvimos pelo rádio, vocês deram uma boa surra nas tropas de Apolonius, de vez em quando enfrentamos alguns soldados que dizem serem das forças dele.

—Obrigado, fiz o que eu pude.

—Por que não entremos nesta pousada? Eu e meu irmão temos um acordo com os donos, fiquem a vontade lá podemos conversar melhor de preferência em português.

—Como se estivéssemos falando em outra língua eu lá tenho cara de que fala yamareu?

—Esi ech do paro it sermo i citoe

(Você tem que falar a língua dos cidadãos) Disse um dos irmãos e Kuria batendo palmas animada respondeu:

—Tromeral toti non mo mesolárvis esis zuleni fasti paro.

(Formidável mesmo sem minha intercessão vocês aprenderam rápido a falar)

—Nóbis barasogeios panti davo nóbis eni viapusili.

(Nós brasileiros sempre damos um jeitinho)

Gilmar contrariado se sentindo feito de idiota gritou em inglês:

—Funk you i also know speak other languajes, cocky!

(Foda—se vocês eu também sei falar outras línguas seus metidos!)

—É fuck you e não funk you. Corrigiu Kuria.

—La puta madre! Retrucou Gilmar murmurando…

Os quatro, a dupla de irmãos camioneiros o português e a deusa entrara na pousada e lá pediram um ensopado, lá eles foram servidos em um cômodo separado.

—Por que estamos comendo e conversando em um lugar reservado? Indagou Gilmar.

—Estamos em um mundo novo. Disse Jerônimo.

—Em terra hostil, descrição é importante. Completou Sergio.

—Como em Tóquio, não é Srta Kuria?

—Não me olhe assim moleque, vocês sabem que eles mereciam a morte!

—Não daquele jeito, chamou muita atenção!!!!

—Ei você é aquela moça que se dizia uma deusa?

—Sou sim…

—É não parece, sabe, eu e meu irmão somos grandes fãs seus nós até compramos a edição limitada da Playboy dedicada a você!

Um dos irmãos Sérgio se retirou correndo e foi na casa da frente buscar o seu exemplar, enquanto Jerônimo tinha um olhar misto de vergonha e orgulho.

—Peraí……você posou nua para aquela revista sem noção?

—O que é que tem Gilmar e aquela revista não é sem noção, achava que você realmente soubesse de história e se soubesse, saberia aquela revista é um clássico.

Logo o outro irmão veio e trouxe a revista sua e de seu irmão e durante poucos minutos (que pareceram uma eternidade) a dupla de irmãos vindos do interior de São Paulo ou de Minas Gerais mais a deusa ficaram conversando sobre a sessão de fotos e depois ela autografou os exemplares com seu monograma sagrado.

Chegando a refeição, algo parecido a um ensopado que misturava ingredientes locais com outros claramente brasileiros (que os irmãos devem trazer regulamente do portal) acompanhado de um vinho, Gilmar comentou:

—Certo a comida chegou e não sou bobo para ignorar que há coisas importantes a serem faladas aqui.

—Garoto você achou estranho ver dois brasileiros ainda tão longes do Forte, mas confesso que acho ainda mais estranho pelo menos neste momento um soldado brasileiro sozinho indo atravessar as montanhas, ainda mais depois do incidente…

—Aquilo não foi um incidente foi uma verdadeira batalha, chamar de incidente aquilo? Vocês têm idéia do que é ver com os próprios olhos o chão salpicado de pelo menos 2 mil mortos em uma área não tão grande? Você tem na memória o cheiro do napal lançado pela nossa Força Aérea? Se quiser chame de incidente o que causou essa matança.

—Se refere ao estrago realizado naquela cidade de comerciantes mais ao sul?

—Shalganusta parece que é o nome da cidade, lá eles falam outra língua eu e meu irmão já trouxemos gente de lá…

—Eu queria ter visto com meus próprios olhos, escravagistas…porém é meio obvio que isso vai causar alguma merda grande ou grande oportunidade.

—Alguém sempre lucra na guerra e aqueles “self made man” não seriam uma exceção (nota: Jerônimo usa de forma irônica o termo utilizado para os grandes homens de negócios americanos que construíam suas fortunas a partir do zero e são exemplos de trabalho e sucesso), pena que nós, graças a nossa amiga, viemos para acabar com a brincadeira deles.

—Do que você está falando? Questionou Gilmar.

—Meu querido o Alguém que são aqueles Self Made Man são a galerinha que como eu e meu irmão, vem para casa do caralho e busca lucrar em cima da situação a diferença nossa com esses ilustres dessa distinta cidade que com o dinheiro de nossos impostos fora excelentíssimamente bombardeada a respeito deles nós não traficamos escravos mas ajudamos a levar refugiados…por um preço claro.

—E armas irmão não esqueça de mencionar que estamos fazendo uma graninha boa vendendo armas mesmo aqueles rifles para caçar tatu…

—Antes que digam algo tenho mais o que fazer do que mencionar traficantes brasileiros de armas das montanhas. Exclamou Gilmar.

—Meu querido o Alguém que são aqueles Self Made Man são a galerinha que como eu e meu irmão, vem para casa do caralho e busca lucrar em cima da situação a diferença nossa com esses ilustres dessa distinta cidade que com o dinheiro de nossos impostos fora excelentíssimamente bombardeada a respeito deles nós não traficamos escravos mas ajudamos a levar refugiados…por um preço claro.

—E armas irmão não esqueça de mencionar que estamos fazendo uma graninha boa vendendo armas mesmo aqueles rifles para caçar tatu…

—Antes que digam algo tenho mais o que fazer do que mencionar traficantes brasileiros de armas das montanhas. Exclamou Gilmar.

O incidente mencionado na conversa, mas também em outros momentos nesta história, aconteceu dias antes da batalha por São Francisco de Tarl—harrel em uma cidade mercantil na vizinha nação da Sikenésia.

O motivo foi por causa de que um pouco antes alguns nativos que habitavam a região e que trabalhavam para os brasileiros realizando serviços gerais foram desesperados ter uma conversa com alguns oficiais para pedir ajuda.

A razão dessa aflição é que alguns parentes e amigos dessa gente, segundo eles disseram foram seqüestrados e depois esses que seqüestraram mandaram avisos sabe—se como de que venderiam essa gente, mas estariam dispostos a negociar um resgate.

Essa prática bárbara era comum em locais onde a autoridade “oficial” era fraca, inexistente ou por isso mesmo, ignorada valendo a lei do mais forte.

Já os brasileiros, estes tinham uma forte amizade com os trabalhadores nativos e por isso os oficiais ao saberem do fato ficaram enfurecidos e acreditando que o poder bélico brasileiro seria suficiente para intimidar, conseguiram dos altos oficiais uma autorização para uma patrulha que seria enviada para reaver os entes daqueles nativos amigos.

Incapazes de compreender o tão sensível era a questão da escravidão para não só os brasileiros, mas todos aqueles que vieram do portal e já em meio a outros problemas, os ricos e poderosos comerciantes—magistrados da cidade, deram o braço a torcer piorando as coisas.

A pressão virou discussão que virou troca de ofensas aberta entre os brasileiros frente aos muros da cidade e os magistrados e oficiais até o momento que ao ver que uma dessas autoridades tinha consigo uma adolescente maltratada e com grilhões o Primeiro Tenente Richieu Cabral Sonbobiesk de 37 anos deu o primeiro tiro.

Seguiu—se um confronto e após as forças locais serem derrotadas sofrendo muitas baixas e alguns magistrados na confusão serem fuzilados inclusive entre eles o genro de Antilonius, Forte São Jorge teve que enviar as pressas um alto oficial para governar a cidade e acalmar as coisas tarefa que tem assumido desde então. O nome do sujeito escolhido para a tarefa foi Abraham Lincoln Gonzaga 51 anos de Fernando de Noronha, município e distrito especial, Pernambuco que naquele momento realizava funções burocráticas em Brasília dentro do Estado Maior e havia sido escolhido devido aos seus interesses em estudos nas áreas de antropologia e história antiga além de ser um burocrata eficiente e principalmente era o que estava disponível naquele momento.

Retomando a história…

Kuria já mais séria tomou a palavra:

—Não sei se todos entenderam ou estão ouvindo as notícias, mas vou resumir a situação de uma forma simples e fácil de entender: nós os deuses abandonamos quase que completamente os que estão se digladiando nesta guerra.

—Srta Kuria, achava que os “deuses” deste mundo não deveriam intervir em conflitos humanos. Perguntou Gilmar.

—De certa forma não devemos, porém quem porta a lei decide se obedece ou não.

—Não gostei desta afirmação…até parece um juiz de suprema corte. Comentou Gilmar

—A guerra é um fardo tão pesado que todos os deuses compartilham, todos nós deuses deste mundo somos deuses da guerra e é só que precisam saber.

—E o que você faz por aqui? Perguntou Sergio a Gilmar.

—Tenho ordens para ir até Yamaris, pretendo depois desta refeição seguir viagem.

—Passe esta tarde conosco amanhã temos que atravessar as montanhas levando alguns passageiros e carga, acredito ser mais seguro assim.

—O que me resta fazer então?

—Tire à tarde de folga você merece, vá falar com a moça da recepção peça um quarto é por nossa conta.

Mas antes um brinde com uma Cachaça Mineira!

—É mineira mesmo? Está escrito Ishigami no rótulo? Gilmar perguntou intrigado ao ver uma bebida tradicional brasileira, mas com nome Nipônico.

—É de Araxá.

—Que seja façamos um brinde a nossa pátria que deixamos para trás, as lindas morenas e ao nosso Imperador! Gritou animado o outro irmão.

Após todos tomarem uma dose da cachaça que apesar do nome era bem brasileira a deusa disse:

—Eu vou com o rapaz ele não sabe falar a língua do meu mundo.

—Certo Srta Kuria.

Chegando na recepção a atendente disse no dialeto local:

—Mene má. (Posso ajudar?).

Kuria então chamou a funcionária e disse:

—Ego ei ena metafrati to impereas i barasogeios eti ego eti mo etairós votu eni domu.

(Sou uma interprete a serviço dos brasileiros e eu e meu companheiro desejamos um quarto.)

—Barasogeis? Todo polo do komi zo mesi pilo jano pue tea gapi?

(Brasileiros? Aquele povo que vieram pelo portal aberto pela deusa do amor?)

—Jai, esi to latrev?

(Sim, você a adora?

—Non, to vai ego latrev Licurgo Foreas Tonomous…

(Não, na verdade eu culto Licurgo Foreas Tonomous…)

—Daar non ego ech zo vulti enia culticis redo i Téo.

(Nossa nunca tinha visto uma adoradora desse deus.)

(Por dentro o sangue divino de Kuria começara a ferver, Licurgo era um antigo desafeto de longa data dela).

—Eti poi to sas divinate to latrev, kuri?

(E qual é a sua divindade a qual presta culto senhora?)

—Ego xekini zo to latrev to teo it to re barasogeios, Cristo, beni kalit poi redo Licurgo, xéré.

(Eu comecei a adorar o deus dos brasileiros, Cristo, bem melhor que esse Licurgo sabe.) (Qualquer divindade é melhor que esse velho chato).

—Labi redo i domu resi re, resi re boré jo afita crisis to re balno do manare riqui fa eti ego poche do prima i iliovailema to re barasogeios do labori nobosco ire uo ferum enia praguema neimoreni

(Tome esta chave do quarto de vocês, poderão depois utilizar os banhos que ficam aqui atrás e prometo que antes do pôr do sol os brasileiros que trabalham conosco irão trazer uma coisa incrível.)

Um fato interessante e ao mesmo tempo inútil é que ao mesmo tempo em que tudo ocorria naquela pousada perto das montanhas, a mencionada divindade chamada Licurgo estava a algumas horas se divertindo com jogos de tabuleiro com Kurios Doriaskipida (irmão e melhor amigo de Kuria) em um local ignorado.

O lusitano ganhou mais uma tarde livre que a usou visitando o vilarejo vizinho chamado de Salir e também observando os irmãos trabalhando em melhorias naquela pousada. Logo ele ficou sabendo que graças aos serviços de transporte deles aquele estabelecimento tinha conseguido receber mais pessoas que ali pernoitavam antes de seguir viagem, aumentando um tanto sua renda, sem contar os lucros que a pousada tinha revendendo as ditas mercadorias brasileiras trazidas pelos irmãos e é por isso que eles tinham um tratamento diferenciado, privilegiado naquele lugar.

Está gente que freqüentava o estabelecimento formava uma massa heterogênea de viajantes formada por andarilhos, refugiados, comerciantes e peregrinos que pagavam em ouro e prata por pessoa o equivalente a 2.000 reais, valor que apesar de parecer alto era barato, pois permitia fazer em um ou dois dias uma viagem que levaria a cavalo ou a pé quase um mês e ainda com a segurança propiciada pelos irmãos e suas armas semi—automáticas.

Mas o que mais dava lucro aos irmãos era a comercialização de mercadorias brasileiras e o transporte de pessoas entre as montanhas, atividade quase diária conectando as comunidades que viviam em ambos os lados e em meio a cordilheira, atividade arriscada que exigia o uso de armas de fogo contra alguma fera ou pessoas hostis (Sérgio contou que pelo menos 3 vezes ele teve atirar para matar em supostos viajantes que tentaram emboscá—lo durante o percurso).

Com os ganhos destas atividades os irmãos compraram uma casa abandonada e um grande terreno entre a estalagem e o vilarejo próximo, reformaram a casa e até ampliaram, recentemente conseguiram trazer um painel de energia solar para desfrutar da energia elétrica, em seus planos estava a construção de um vilarejo nas terras adquiridas fundando uma colônia ainda sem nome.

Pode ser que isso nos mostre que em meio ao caos existe terreno fértil para empreendedores sem medo da derrota ou loucos e estúpidos o bastante para apostar tudo.

 

Notas e Glossário:

Originalmente Shalganusta era para ser uma cidade—estado submetida a Yamaris e por causa da guerra civil estaria por contra própria novamente porém conforme eu avançava na trama decidi que se tornaria uma cidade importante de uma nação também naquele momento governada por uma elite mercantil.

Ishigami: O motivo da Cachaça Mineira ter o nome Ishigami é uma homenagem ao protagonista do Anime/ Mangá de Ficção Científica Dr Stone e também que em determinado arco da história se passa no Município de Araxá—MG.

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Capítulo XXXV