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Capítulo XXXVI: Purificação.

 

Chegará à noite e Gilmar, Kuria (ainda com outra fisionomia), os irmãos camioneiros estavam sentados novamente na parte reservada para jantar.

—Acredito que nossa conversa tenha ficado um pouco confusa ou não terminada como eu esperava. Disse Gilmar.

—Sim sim, estava já esquecendo, lembrando…Gilmar você sabe muito bem o que ocorrerá a qualquer momento isso se não está ocorrendo não é?

—Seja mais especifico

—Por favor HOMEM! Estamos falando de uma corrida colonial igual ao que aconteceu algumas vezes na história do ocidente e que levou a Primeira Guerra Mundial e outros conflitos anteriores!

—Guerra mundial? Precisou de um outro mundo aparecer para finalmente acontecer uma guerra mundial? Alguém aqui já olhou para o Mar do Sul da China, Formosa e qualquer outro rincão maldito neste mundo!

De fato já fazia muitos anos que as tensões nesta parte do mundo crescia, o Mar do Sul da China é uma importante região por onde (dados dos anos 2020) passa mais de 30% do trafego marítimo, grandes regiões pesqueiras vitais para a alimentação dos povos da região além de comprovadas reservas de hidrocarbonetos. Por algum motivo a República Popular da China no início do século XXI declarou que aquelas águas que banham nações como Vietnã, Malásia, Philipinas, Brunei Darussalan e Taiwan Formosa, eram inteiramente suas.

Construindo ilhas artificiais verdadeiras bases navais em atols espalhados por este mar a China tem desde então buscado reafirmar na base da força sua reivindicação fazendo o comércio global refém elevando as tensões enquanto força países vizinhos a uma corrida armamentista inclusive o Japão que nos idos de 2025 conseguiu apoio para mudar sua constituição pacifista que apesar de continuar chamando suas forças armadas de forças de autodefesa se tornaram mais poderosas que as antigas forças armadas imperiais que na segunda grande guerra mundial causaram tanto terror e foram derrotadas a preço alto.

—Calma garoto, não foi isso que eu quis dizer, mas temo que nações antes aliadas comecem a se enfrentar. Disse um dos irmãos, e o outro completou:

—Ou surgir tantos outros vórtices favorecendo mais nações que logo vão querer um naco do que os japoneses e os brasileiros conseguirem. Kuria só as divindades podem fazer o que você fez?

—Creio que sim, vocês sabem que estes portais podem ocorrer naturalmente como o que abriu há quase 600 anos, mas desde tempos antigos sempre tem algum humano maluco buscando a fórmula para repetir isso, ninguém conseguiu, mas pelo visto este meu devoto (cheguei a mencionar?) descobriu uma fórmula e foi a que eu usei.

—Os deuses são os únicos que podem fazer, mas não fizeram e você foi digamos a primeira?

—Até onde eu sei sim…

—Sério?

—Nos últimos séculos sim. (Kuria olhou para os irmãos e Gilmar com aquela cara: tem coisa que não quero falar vocês se virem para descobrir).

—Ignoro sua relação com os outros deuses, mas creio eu que poderá haver uma corrida da parte de seus “colegas” para utilizarem a fórmula para criar os vórtices.

—É bem perspicaz mortal. Elogiou Kuria respondendo a Sérgio.

—Eu sou só um soldado um simples soldado, a diferença das parafernálias robóticas não posso ser hackeado e tenho minha moral, não sei o que ocorrerá, mas farei tudo para que o Império do Brazil se sobressaia, se não creio que minha pátria tem algo diferente e essencial a mais entre as nações não faz sentido eu estar aqui. Respondeu Gilmar.

—Certo, bom como eu acho que devo ter dito antes, mas o futuro é ao mesmo tempo imprevisível e cheio de elementos familiares se posso dar um conselho agora a nós brasileiros, vamos olhar para o parlamento. Disse Jerônimo.

—Parece que este parlamento vai acabar antes do programado e teremos novas eleições, uma pena, pois eu gosto muito do Conde ele é como o pai, uma lenda viva. Comentou Sérgio.

—Dos cinco irmãos ele é um dos que mais carrega nas costas o legado do pai. Completou Jerônimo.

—Chega! Sei que política rege nossas vidas, mas parei aqui para descansar, ei rapazes, vamos jogar um truco?

—Gilmar você tem um baralho contigo?

—EU SEMPRE TENHO UM BARALHO COMIGO! Gilmar sacou do bolso da calça um baralho novo.

—Bem estamos em quatro se nossa amiga souber jogar…

—Kuria você sabe jogar truco não é?

—Que divertimento é esse?

Gilmar pela enésima vez naquele dia olhou pasmo, uma mistura de susto e frustração, ela não era a deusa da inspiração? Não sabia tudo? E não sabe jogar truco?

—Srta Marechal, Sua Santidade, permita—me ensinar este jogo, ou melhor, está tradição brasileira.

Após aprender ela disse animada:

—Fascinante! Então este é um jogo em que a cada rodada os participantes escolhem entre suas cartas um campeão para um duelo!!!!

—É mais ou menos por ai…Disseram sem jeito os rapazes.

E durante um bom tempo eles ficaram jogando, chamando a atenção de alguns hospedes a funcionária e também os que iam para comer e beber que curiosos assistiam as partidas daquele novo jogo.

Já era tarde os irmãos se recolheram para casinha que construíram e Gilmar foi tomar um longo banho antes de ir dormir, aproveitou despido, deitado, relaxado e emergido na água quente se perdeu em seus pensamentos, não havia caído à ficha nunca cairia isso ele já pensará várias vezes, mas tinha algo que o incomodava, não era a saudade dos pais e de seus entes isso ele tinha certeza, mas tinha algo que o incomodava e ele não conseguia saber ou dizer.

Falando racionalmente ele estava fazendo a coisa certa e isso tinha muito do que ele desejava que era a chance de repetir o que os seus ancestrais fizeram a chance de servir ao Imperador como ele desejava e até a companhia querendo ou não de uma amiga apesar de ele temer um pouco como cristão por sua alma.

Ele ouviu passos e olhou para trás:

—Kuria, por favor, estou tomando banho, não tem o banho feminino?

—Este é o misto

—Sério?!!!

Achando que ela tinha entendido ele se voltou para frente e resolveu terminar de se lavar para que a deusa pudesse fazer o mesmo depois, quando olhou para trás de novo e viu a divindade nua.

—Não faça nada

—De onde eu vim lá de Portugal isso tem outro nome.

—Se você não confia em mim daremos essa missão como encerrada te mando para Brasília e revogo o acordo com o Império ou peço outra coisa em troca.

—Faça o que quiser você é bonita.

—Cretino você não sabe nem o dia de amanhã vai querer saber o que lhe ocorrerá agora, apenas fique como está.

Kuria se aproximou e com as mãos começou a passar por cima das costas de Gilmar, costas magrelas, mas com algumas cicatrizes, reparou em uma delas que curiosa cutucou, que parecia ter um objeto duro dentro dela.

—Está curiosa? Como eu tinha contado, antes de vir para o Brazil, houve no país onde nasci um pequeno conflito militar e nele lutei.

—Achei que tinha sido apenas um pequeno confronto.

—E foi, com rápidas e até esporádicas trocas de tiro, mas houve UMA batalha UMA ÚNICA BATALHA, UMA ÚNICA MALDITA BATALHA em volta do Palácio de São Bento onde se reúne nossos parlamentares, as forças rebeldes que desejava impedir a restauração da monarquia ocuparam este e outros prédios próximos e eu e meus companheiros tínhamos que tomar aquele palácio. Tomei à dianteira procurando criar uma cabeça de ponte, mas eu e meus companheiros fomos acertados por uma granada disparada pelos amotinados, a granada, tive sorte não me pegou em cheio, pois estou vivo mas me jogou para longe e ceifou dois dos meus companheiros. No momento do choque da explosão me disseram depois já que não me lembro de nada que minhas mãos se contraíram e continuei por isso a disparar com meu fuzil enquanto era empurrado pela onda de choque. O inimigo achou que eu estava em combate e disparou contra mim, foi assim que ganhei está lembrança que entrou pelo meu peito e alojou onde você está vendo, as outras marcas são estilhaços da explosão.

—Você foi um bravo soldado.

—É o que você diz é o que o rei de Portugal disse, mas ser um dos primeiros a serem atingidos para mim não significa ser um herói, tive sorte poderia ter sido morto ou mutilado ou os dois. Se ser alvejado ou morto fosse sinônimo de heroísmo os russos então são a nação com mais heróis por quilômetro quadrado afinal eles tiveram a geração mais heróica tão heróica que perdeu 80% dela, e os paraguaios? São heróicos nesse raciocínio se sim o Brazil foi uma fábrica de heróis ao massacrar dando o justo revide contra aquele país.

Creio e não creio que morrer seja heroísmo talvez isso mude ou não até lá aprecio a ambigüidade do que penso.

—Morrer por algo, faz um herói.

—Ser herói ou a mera possibilidade faz um anônimo querer despontar da mesmice às vezes tão desprezada, mas não menos valiosa.

—E é por isso que a guerra atrai tantas pessoas não é o desejo puro de matar, mas de no inferno desabrochar.

A deusa concentrou suas mãos na cicatriz que continha o projétil alojado e se preparava com seus poderes extrair—lo.

—Não me queixo de minhas cicatrizes, são lembranças do que passei, se dependesse de mim elas continuariam.

—Para que o ritual que me dará a posse de sua alma tenha êxito eu preciso limpar suas feridas e o máximo de impurezas, não faça por qualquer pessoa, mas pela sua pátria, porém se estas marcas são tão importantes para você, deixarei em seu lugar algo parecido a tatuagens para que você nunca as esqueçam.

Continuando com suas mãos sobre as costas do rapaz, a cicatriz começou a brilhar e devagar o projétil começou a levitar atravessando aquele brilho. Aquele objeto que no momento do impacto se fragmentou em um pedaço maior e outros menores agora finalmente estava fora do corpo de Gilmar e ainda no ar se uniram formando uma massa meio disforme que quando voou até as mãos se de Gilmar foram se transformando em um amuleto, Kuria disse:

—Guarde como lembrança que está vivo!

As mãos da deusa agora passava sobre as outras cicatrizes e da mesma forma como a primeira, pareciam brilhar, um ou outro minúsculo fragmento flutuava e no lugar onde estava a ferida aparecia uma tatuagem. Quando terminou de passar suas mãos por toda a costa do rapaz, que estava inerte olhando para frente no vazio, a deusa deu um tapa no meio das costas, um pulso de energia e Gilmar ficou inconsciente.

No dia seguinte ele acorda, estava deitado, vestido e bem ajeitado na cama, tinha passado do meio dia, mas a estação ainda permitia temperaturas agradáveis mesmo naquele momento do dia. Sem entender levantou trocou as suas vestes leves por sua farda e desceu pelas escadas, ele sentia fome, a primeira coisa que imaginou é que ele tenha ficado desacordado por muitas horas, só lembrava daquele momento nos banhos onde em uma situação inusitada contou a Kuria o que ele fez (ou segundo ele deixou de fazer) quando lutou em Portugal por seu rei.

Caminhando para o local onde eram servidas as refeições foi abordado por um garoto de pele bem negra que trabalhava lá e em um português capenga disse que as suas coisas já foram levadas para seu veículo e que o almoço de hoje seria ensopado de carne com pão.

Gilmar ficou constrangido, pois o garoto lembrava muito os guerreiros Muntukuthuvegazis massacrados na batalha passada, será que alguns parentes dele caíram frente aquela trincheira? Ele nunca saberia, não valeria à pena perguntar o importante era comer e seguir viagem.

Indo para frente da pousada, parecia realmente tudo pronto o Agrale estava em ordem e os irmãos camioneiros fariam companhia guiando na travessia pelas montanhas e naquele momento um deles trabalhava com seu kit de ferramentas elétricas em uma estela de pedra erguida por eles próprios que continha a tradução em português do texto escrito na outra estela do lado oposto da estrada.

O texto original dizia:

TI FASI KOU 619 (ECSI CET DUO DEK NIFA) I EPTA ITA TO BASIEO XRI A RIHI I CATRI I MELRAGODÔNIA IT IMPERA I SAS BASIEOKAN LEOS TRIA IT CYPROPHILO AVIARE ZO DRAS ANEKYSTA I ENA DROMI ETI PESIDOMIA ETI ME BRIGUI ETI MESTIGA ETI ANTIA AVIARE ZE IT VASI TI ROK KOU I PUSILE SORIO PUER AFALI AFALEIA IT TO RE TACSIDOTE DO RIQUI COROSÓS REDO RE OLIPIS

TO BASIEOKAN ME BUTIDIQUE PUER SAS VASSA UM ANAKITO REDO I ERGA DAVO IT TO TOTI IT PROTEIA I EPORIO ENDIA TO RE OLIPIS.

Em português ficaria:

NO ANO DE 619 DA SÉTIMA ERA O REI XRI A RIHI DA NAÇÃO DE MELRAGODÔNIA A MANDO DE SEU IMPERADOR LEOS III O CYPROPHILO INICIOU A CONSTRUÇÃO DE UMA ESTRADA CALÇADA E COM PONTES E MUROS E TAMBÉM INICIOU A FUNDAÇÃO DE PEQUENAS VILAS PARA GARANTIR SEGURANÇA AOS VIAJANTES QUE AQUI CRUZAREM ESTAS MONTANHAS

O IMPERADOR COMO RECOMPENSA POR SEU FIEL VASSALO EM ASSUMIR OS CUSTOS DESTA OBRA DÁ AO MESMO A PRIMAZIA DO COMÉRCIO ENTRE AS MONTANHAS.

A estela construída pelos irmãos tinha o mesmo texto e em português, completada com as seguintes linhas:

NO ANO DE 2041 DO CALENDÁRIO CRISTÃO E 817 DA SÉTIMA ERA DESTE MUNDO. DOIS IRMÃOS VINDOS DO BRAZIL PELO PORTAL QUE LIGA ESTES DOIS MUNDOS, JERÔNIMO PAES CESACARETTI E SÉRGIO PAES CESACARETTI, TRADUZIRAM PARA O IDIOMA PORTUGUÊS, O ESPANHOL E O INGLÊS A ESTELA ORIGINAL PARA QUE OS VIAJANTES VINDOS DE NOSSO MUNDO POSSAM TOMAR CIÊNCIA E TESTEMUNHAREM ESTA HISTÓRIA, SOB A PROTEÇÃO DE NOSSO AMADO IMPERADOR D. RAFAEL O PRIMEIRO DE SEU NOME DA CASA IMPERIAL DE ORLEÃES E BRAGANÇA.

E também na língua local:

TI FASI KOU I 2041 (DUO KLIE ETI TARI ENI) I ESTATHIROI CRISTANI ETI 817 (KETON CET ENI DEK EPTA) I ITA EPTA REDO I COSMO. DUO FRATECHI KOMI I BRAZIL MESU PILOS DO GATAI REDO RE DUO COSMO JERÔNIMO PAES CESACARETTI ETI SÉRGIO PAES CESACARETTI METAFRATI ZO PUER TO SERMO PORTUGUÊS TO ESPANHOL ETI TO INGLÊS TO ASTER GENINAL PUER DO TO RE TACSIDOTE KOMI I NORUM COSMO KUO RE BORÉ LABI SAPI ETI MARTIRAR REDO HISTORIA PINHO I NORUM KIRETO BASIEOKAN D. RAFAEL IT ENI I SAS ONOA I MAIS BASILEIOS I ORLEÃES E BRAGANÇA

O mesmo texto se repetia mais duas vezes nos outros idiomas mencionados fazendo com o que a estela tivesse mais de três vezes o tamanho original devido à distinta escrita nativa.

Segundo os irmãos, quem traduziu para eles foi um sábio andarilho que eles transportaram em uma das viagens e graças a sua ajuda não lhe foi cobrado nada. Tamanho tão grande tinha este monumento que a maior parte do texto mencionado ainda estava pintado, demarcando onde os instrumentos cortantes passariam um trabalho para se fazer nas horas vagas. E a pedra semelhante ao granito ou mármore de tom cinza azulado onde foi obtida? O comércio feito através das montanhas graças à tecnologia moderna tem dado bons frutos aos irmãos aventureiros que se deram o luxo de logo que chegaram a sua “base” e viram a estela original pela primeira vez, encomendar o bloco necessário para se erigir outra ao lado pagando em ouro e itens brasileiros.

—Ae bela adormecida, a noite foi boa? Está na hora de pegar viagem. Gritou um dos camioneiros, o veículo estava carregado de encomendas para serem entregues e levava também algumas pessoas.

Gilmar ficou constrangido, ele só lembrava de quando estava se banhando e contando sobre sua vida, ele tinha receio de saber o que aconteceu depois e só queria se preocupar agora em dirigir pelas montanhas.

Olhou para a pousada e agradeceu a todos dizendo que acreditaria passar por ali no seu retorno para casa.

Alguns metros depois de onde estavam o caminho já começava a se inclinar para cima e serpentear entre passagens e caminhos esculpidos na rocha com paredes naturais acima e muros de pedra perfeitamente construídos abaixo formando verdadeiras muralhas a largura era de uma estradinha de mão simples permitindo com muito cuidado dois veículos lado a lado.

Segundo os irmãos o trajeto sinuoso atravessando a cadeia de montanhas em linha reta daria uns 40 ou 50 quilômetros, já a estrada tem pelo menos 200 quilômetros com os nativos levando pelo menos 10 dias de viagem a pé ou até 4 ou 5 dias a cavalo, porém de caminhão dá tomando bastante cuidado fazer em 7 horas.

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Capítulo XXXVI