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Capítulo XXXVII: Pelas montanhas chega às notícias do rádio.

 

O grupo de viajantes finalmente partiu de tarde para cruzar as montanhas, por sugestão dos irmãos eles parariam e pernoitariam em uma pequena vila de camponeses chamada Poliorkoilá, neste lugar os camioneiros pretendiam trocar sacas de fertilizantes por vários produtos agrícolas e depois revende—los em ambos os lados das montanhas.

A vila ficava há uns 70 kms e o tempo de viagem seria de aproximadamente 3 horas, os irmãos que conhecia a estrada, conhecimento aprendido na marra e na sorte tomaram a dianteira e o “comboio” avançou em velocidade constante tomando todo o cuidado, um passo em falso…

A monotonia e a tensão causada ao viajar por estrada só não foi maior por que graças a um milagre, dava para captar o sinal de rádio de Forte São Jorge o que quebrava um pouco o tédio.

E assim tocava a rádio:

…está é a Rádio Colonial FM falando provisoriamente da Base Militar Forte São Jorge, mas que em breve irá para suas instalações, anotem ai ouvintes quem não anotou: Rua Kaiser Guilherme II nº230, Zona Comercial I, Forte São Jorge…seguiremos com nossa programação de notícias e entretenimento…

…se você é um ouvinte que nos ouve dos confins do novo mundo, saiba que isso só é possível graças a Pontes Soluções Tecnológicas que é uma das pioneiras na tecnologia dos Balões Retransmissores, graças a eles nosso sinal consegue chegar ainda mais longe sem precisar de antenas em locais de difícil acesso ou os caros satélites orbitais além de serem de fácil manutenção…estes balões possuem painéis solares que alimentam toda a sorte de instrumentos de navegação, locomoção e principalmente de comunicação…a Pontes Soluções Tecnológicas tem assumido está tarefa em prol do Império, os balões são enviados dobrados a grandes altitudes graças aos aviões cargueiros Embraer—KC de última geração da nossa força aérea imperial onde são lançados e já operam poucos segundos após serem jogados…

…e essa ação da FAB só é possível sem onerar os cofres públicos porque a Pontes Soluções Tecnológicas apóia e divulga a compra de Bônus Militares e Títulos do Tesouro colecionáveis, ao comprá—los além de possuir estes valiosos itens que contam sobre nossa história e nosso presente, você ainda demonstra seu apoio as nossas Forças Armadas e o amor ao nosso Imperador…

—Acabou os comerciais?

—Qual é o problema jovem lusitano, não gosta dos bônus de guerra?

—Nem vi direito Sérgio isso só sei que é uma forma de financiar as coisas por aqui.

—Nós somos vendedores autorizados.

—O que é que vocês não vendem?

—Escravos e sexo você viu o que aconteceu quando os milico receberam denuncia que nativos aliados tiveram seus entes escravizados.

—E tu ACHA QUE EU NÃO SEI? QUANTAS VEZES JÁ ME DISSERAM ISSO, É POR CAUSA DOS DEDO—MOLE NO SUL QUE EU DEVO TER MATADO MAIS QUE O SIMO HÄYHÄ…

Essa conversa ocorria através dos comunicadores dos veículos enquanto rodavam por subidas, descidas e curvas sinuosas, a paisagem era aos olhos brasileiros, maravilhosa e curiosa.

Havia galerias, verdadeiros túneis abertos nas montanhas nas bordas ou próximas as estradas.

—Alô irmãos camioneiros na escuta?

—Aqui é o Jerônimo na escuta Gilmar.

—O que são esses túneis perto da estrada?

—São áreas para futuras ampliações da EcoVias, brincadeira na verdade segundo o que eu conseguir saber, essa região no passado foi uma área de mineração agora o que eu ainda não sei.

—Principalmente carvão, ferro, cobre e prata. Respondeu Kuria com maior naturalidade.

—Duvida esclarecida nem percamos tempo analisando estas minas. Respondeu Gilmar um pouco frustrado no fundo ele e outros pioneiros iriam gostar de descobrir por conta própria o que tinha nas minas, mas mesmo já sabendo o que foi extraído ver aquelas galerias em meio às escarpas é algo difícil de ser ver na vida.

Continuando a viagem em meio aos paredões, córregos e escarpas, os brasileiros avistaram do outro lado de um dos inúmeros vales no topo de uma montanha um enorme castelo em ruínas que mesmo desgastado e abandonado ainda mostrava ser senhor da paisagem como se guardasse aquele território.

—Ei pessoal, o que é aquilo lá do outro lado? Perguntou Gilmar pelo rádio.

—Há, deixa que eu responda, está vendo mais embaixo do morro? Repara que há varias ruínas em volta e lá embaixo há umas casinhas.

De fato havia várias construções abandonadas apesar de que as na base da montanha parecia haver habitantes já que em volta existia um pasto com algumas cabeças de gado.

Sérgio que estava falando com Gilmar continuou:

—Então sabe aquele reino mencionado naquela estela de pedra no início da estrada que construiu a mesma? O que você está vendo me disse um cara que eu transportei, são as ruínas da capital deste país. Nós estamos procurando algum livro contando a história deste antigo reino para podermos vender para alguma editora brasileira e claro conseguir uma boa grana.

A viagem prosseguiu sem problemas a estrada era sempre sinuosa e nela havia um ou outro viajante, alguém levando seu rebanho, alguma carroça com sua carga ou passageiros e claro a companhia proporcionada pela rádio que apesar dos comerciais um pouco chatos, continuava a tocar e naquele momento a programação trazia algumas notícias.

…e voltamos com nosso giro de notícias, aqui é a rádio Terça Livre, notícias internacionais, crescem confrontos na Guiana, desde as últimas eleições a comunidade de origem indiana e a comunidade de origem africana tem protagonizado ações violentas entre si. Segundo uma fonte que nós tivemos acesso e por razões obvias não iremos revelar, o alto comando das Forças Armadas tem estudado a possibilidade em intervir caso a situação chegue a um estado de caos completo e parece, opinião minha, o Brazil só não realizou uma ação mais dura devido ao seu foco na Mesogeia, mas não é por isso e sim devido a isso que nossa nação não abrirá mão de sua posição de liderança…

Quanto mais se embrenhava nos vales pior ficava o sinal chegando ao ponto de ter de desligar o aparelho ou por alguma música gravada para tocar, os irmãos no caminhão gostavam de ouvir sertanejo raiz, brega e bandas tradicionais. Gilmar ouvia de tudo desde rock pesado há animesong e outros estilos que só os anos de 2040 poderiam proporcionar desde que houvesse algum significado ou beleza ou bom senso artístico.

A estrada em todo o trajeto era calçada tal como os antigos romanos construíam na Europa e suas pontes eram um monumento a engenharia a parte, também havia trechos que para evitarem que a estrada fosse muito íngreme, eram escavados diretamente na rocha, se no Brasil isso é algo muito comum, na mesogeia se tornava algo incrível uma vez que eles não tinham acesso às tecnologias que as pessoas do outro lado do portal possuíam, para um brasileiro ou qualquer cidadão do mesmo mundo, aqueles trechos eram escavados na “unha”.

A vegetação era mais um testemunho do país que antes abrigava, pois só se via grandes árvores semelhantes a pinheiros, nos locais de mais difícil acesso estando o fundo dos vales e as partes menos íngremes cobertas por campinas ou vegetação de médio porte relativamente nova. Além disso, a fauna se fazia presente, grandes pássaros semelhantes a águias pegavam impulso em seus vôos dando rasantes ao descer as montanhas para depois subirem a toda velocidade, talvez isso gerasse uma adrenalina nos animais já que mesmo quando estavam sozinhos eles davam um grito como que se estivessem se deliciando com o perigo e a velocidade.

Por fim existiam muros nos trechos mais perigosos e quando o terreno permitia a estrada ficava mais larga com alguns pontos de descanso, mas o que mais chamou atenção foi algo saído dos relatos de Tucídides: troféus de guerra, como contando em História da Guerra do Peloponeso que para comemorar uma vitória os antigos gregos tomavam as armas dos inimigos e com eles erguiam um marco comemorando o seu triunfo e eram “monumentos” semelhantes a estes que se viram algumas vezes ao longo do trajeto.

Eram no horário local perto das 17:00, e naquela época do ano isso significaria mais duas horas de sol, no Brasil era outono mas no hemisfério norte da Mesogeia o verão tinha a pouco se iniciado. A estrada serpenteava agora próxima do fundo dos vales e se podia ver vários muros alguns chegando a uns 5 metros de altura sobrepostos parecendo escadas formando vários terraços ligados entre si por escadarias.

Os terraços se espalhavam pelas entranhas das montanhas, havia casas entre eles. Chamou a atenção ao mesmo tempo em que estes terraços eram bem cuidados, o grande número dessas estruturas que não eram utilizadas indicava que a população nessa área já foi no passado maior.

—Português, está na escuta?

—Sim pode falar

—Chegamos, veja.

Um vilarejo humilde tal como São Francisco Xavier de Tarl—harrel, mas com suas diferenças, enquanto no primeiro vilarejo as casas em sua maioria eram feitas de alvenaria e madeira aqui neste lugar cujo nome em português significa Sitiante do Vale, todas as construções eram feitas do abundante material oferecido pelas montanhas, pedra, cortada em tijolos ou polidas em alguns lados para serem encaixadas em um complicado quebra—cabeça.

Seus telhados íngremes eram feitos de madeira, palha ou telhas de pedra, havia um pequeno núcleo de construções, mas a maioria ficava espalhada em meio aos campos e terraços, estas casas possuíam poucos cômodos. O vilarejo, para quem vinha da estrada parecia ter pelo menos 20 prédios e dessa mesma estrada saia um caminho que ia em direção ao núcleo principal do assentamento.

Não havia muralhas ou qualquer coisa que delimitasse os limites do povoado se tinha algo que marcava os limites do povoado se isso fosse possível dizer, era um templo do tamanho de uma paróquia dedicado a um deus chamado Eipolperi Parocho Ankona Toxi ou na forma simplificada: Parocho Ankona Toxi ou Aftos Paracho, ou Ele o provedor.

Passando do lado do templo pela rua relativamente larga, o caminhão e o jipe pararam. Os aldeões curiosos logo cercaram e entre eles apareceu um senhor que apesar da idade possuía grande porte físico e boa saúde, ele caminhou tranquilamente e saudou os visitantes na sua língua que era um dialeto que vinha da mistura da língua falada pelo império de Yamaris e de outras línguas que existiam naquelas bandas há muito e muito tempo.

Os irmãos entendiam essa língua, diz por aí que aprender muitos idiomas não é bem uma opção para quem deseja se embrenhar e enriquecer no comércio são na verdade uma condição. Eis o que o senhor que parecia ser o chefe do povoado disse:

—Kal—uoristre pia zemir dje maixandri e mar it jo ferre mo gu—ke redi feo marimi Khamion?

(Bem vindos mais uma vez meus amigos mercadores de longe, o que trazem no ventre desta besta que vocês chamam de Caminhão?)

—Ferrumo sales mari eti dje magrema eire more franere

(Trouxemos sacas de fertilizante e uma coisa que vocês nos pediram)

Primeiro os rapazes do povoado retiraram as sacas de fertilizante enquanto isso Sérgio comentava:

—Parremo telu dje marca zaxir di dje ojo mik redi malal pue dje tim kalite if—ta ferrumo pia sales mesi topi tim mian lita dje ligo mo ora e postis more veldri dan—dan egoproi gra tor odieiarre u Yamareu frano priezeks amima ni dorium it grassiura dan—dan redu bem crakprek édon tif.

(Conseguimos achar uma marca quero dizer uma fabricante deste material por um preço melhor por isso trouxemos mais sacas pelo mesmo preço só muda um pouco na hora de colocar nos campos então tentei escrever as instruções em Yamareu peço perdão ainda não domino a escrita então está bem rudimentar quase intuitiva.)

— Marril—ka (Muito bom), respondeu o senhor e continuou: redu malal jo patrie mik afizimo marril it paroi u noure veldri kao davobis logra e jo raçol—rumo manarmo marril equimenos al tor kuri—re loterre ferrum obter magrema

(esse material que seu país fabrica aumentou muito a produção em nossos campos, mal damos conta do que colhemos ficamos muito felizes, mas os senhores prometeram trazer outra coisa.)

—Eti lina ferrumo bara pame tor RIFLES

(E nós trouxemos, irmão pega lá os rifles.)

—Perai… vocês disseram rifles? Isso mesmo rifles? Exclamou assustado (mais uma vez Gilmar)

NOTAS E GLOSSÁRIO:

Distâncias em meio às montanhas: Parece bobo, mas gastei um bom tempo estudando as rotas através dos Alpes para elaborar cifras mais próximas do real, até a largura da cadeia montanhosa me inspirei em existentes.

Simo Häyhä: 1905—2002, apelidado de Morte Branca, foi um franco—atirador e herói de guerra finlandês o mais letal da história a quem se atribui entre 200 a 500 mortes durante a guerra de inverno (1939—40) quando os soviéticos invadiram a Finlândia.

Dedo—Mole: No jargão militar e policial se refere a aquele que não consegue ficar sem atirar, puxar o gatilho em uma ação ou missão, geralmente se refere a quem abre fogo na hora errada podendo prejudicar toda a ação.

EcoVias: Empresa responsável pela gestão das estradas que liga a Baixada Santista com a capital paulista através da Serra do Mar.

Sitiante do Vale: Esses nomes simplesmente vem na minha cabeça.

 

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Capítulo XXXVII