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Capítulo XLVIII: Para o QG, para o Hospital de Campanha.
 
 
 
Shalganusta era um típico burgo que teve condições graças a sua economia o luxo de possuir uma muralha em volta da cidade. Anteriormente como vilarejo, cresceu em volta da principal rota que ligava as regiões norte e sul do continente a certa distância das montanhas.
Conforme a cidade crescia e principalmente quando fora refundada pelas guildas mercantis, a vila de beira de estrada tal como uma entidade cobiçosa reivindicou seu trecho de estrada e crescendo em volta a engoliu e tornou—se a si mesmo digna de cobiça, admiração e importância e junto com outras cidades da mesma estirpe se espalharam pela dita estrada do mesmo jeito que portos se espalham ao longo de um raro litoral suave.
As ruas eram retas, se cruzavam em ângulos perfeitos de 90º até mesmo a estrada que apesar da planície tinha o capricho de leves curvas foi como um rio Paulistano, posta a ferros e retificada.
As muralhas na verdade seus quatro portões se tornaram um desafio para os soldados da Engenharia do Exército uma vez que não foram feitas para passagem dos modernos veículos pesados vindos do Brazil, (o fluxo de materiais e mercadorias só se tornou possível dentro da cidade devido à destruição do portão norte no incidente) isso obrigou que os outros três portões fossem destruídos e reconstruídos permitindo a passagem de veículos pesados e altos, mas ao mesmo tempo em que eram novamente construídos com o melhor da engenharia brasileira também era respeitada a arquitetura local até se dando o trabalho de refazer as ornamentações que existiam (apesar de que respeitando a idéia de ornamentar as passagens teve gente que achou um exagero por um C.A.E.S.A.R de cada lado dos portões e mesmo a idéia parecendo esquisita ela foi levada a cabo por que sempre há oficiais sensíveis e inclinados a aceitar “boas idéias” que sempre são as piores).
Outras construções tiveram que ser removidas para a passagem da infraestrutura do qual todos que vieram do outro lado do portal são incapazes de viver sem. (Basicamente um terminal de cargas mais amplo foi construído onde havia um quarteirão de gente mais simples e estas pessoas foram devidamente indenizadas com algumas indo morar na Metrópole Brasileira).
As casas de pedra algumas feitas com materiais vindos de longe (uma forma bem direta de demonstrar a riqueza do dono) outras feitas de alvenaria podiam ser tão ou mais bonitas que as feitas de tijolos de pedra. Outras casas eram feitas inteiramente de madeira algumas mais simples outras mais elaboradas. Era comum existirem edifícios de apartamentos alguns tinham comércio embaixo e em cima vivia os trabalhadores, outros que chocaram os brasileiros serviam de moradia aos escravos, (existia e isso foi descoberto depois, prédios fora das muralhas que eram verdadeiros armazéns de cativos com uma estrutura semelhante a uma prisão). Entre as casas também havia uma ou outra que pertenciam a elfos e estes mesmo os mais humildes decoravam em algum ponto da moradia com o que se convencionou chamar de “totem”, um objeto ou escultura que era o símbolo da família que ali vivia e se passava de geração a geração. Outros humanóides que os brasileiros chamavam de “bestiais” basicamente os tipos chamados de homens gato e homens cachorro tinham em locais visíveis de suas casas estatuetas de heróis protetores.
Shalganusta possuía uma população de aproximadamente 32000 habitantes apinhados em sua maioria dentro dos muros da cidade seus muros tinham aproximadamente uns 10 metros de altura e o perímetro das muralhas chegava quando muito a 20 kms dando uma área aproximada de 25 kms² com uma densidade demográfica entre 740 a 1500 habitantes por km² dependendo da parte da cidade considerando o interior dos muros.
Próximo a praça central em uma antiga casa de leilões de cativos, uma mini fortaleza com cinco pavimentos, foi instalado uma unidade hospitalar e de pesquisa biológica ocupada pelo Corpo Médico PBQM. Nos primeiros pavimentos havia o atendimento rotineiro aos doentes e feridos tanto nativos quanto soldados e oficiais brasileiros além de uma comunidade embrionária já composta por colonos brasileiros.
Nota: Devido há alguns eventos ocorridos no início do século XXI os ideolizadores e responsáveis pelo projeto foram sutilmente alertados que se algo acontecesse tal como em Wuhan o cadafalso ou o paredão os aguardavam sem mais e todos os dados seriam imediatamente compartilhados com qualquer suspeita de encobrimento de dados tratados como traição ou lesa majestade.
Os andares superiores eram dedicados a pesquisa e estudo de dados coletados e tudo isso, toda a parafernália tecnológica e digital era alimentada por painéis solares que cobriam quase todo o belo telhado do prédio e com um sistema de baterias que permitia seu funcionamento noturno.
Este projeto, Nova Gênesis consistia em recolher o máximo de amostras orgânicas de toda vida, animal, vegetal e microrgânica, Senciente ou não para estudar desde sua composição químico e física além de estudar seu DNA ou equivalente. Além de responder as questões que os humanos levantam sobre a biodiversidade no seu mundo o projeto Nova Gênesis visava estudar patologias para melhor remediar e prevenir.
E foi para lá que os dois aventureiros nativos foram enviados. Sob os cuidados da médica Letícia. Tiveram amostras de sangue coletadas além de também terem sido recolhidas amostras de cabelo, exames rotineiros de pressão, medir altura, peso, etc e por fim um questionário referente ao dia a dia, o que se sentia foi preenchido por aqueles dois aventureiros.
As amostras eram cuidadosamente armazenadas, os dados registrados eram enviados por rádio a Forte São Jorge. (Observação, aqui utilizei o termo rádio, mas na prática graças a algumas antenas erguidas e sondas atmosféricas retransmissora, estava se criando uma rede de internet que em alguns casos chegava até Yamaris.)
Voltando ao QG montado na cidade os dois veteranos de guerra que uma vez lutaram em lados opostos se reuniam com o Coronel Amilcar Von Frender que antes mesmo da chegada dos aventureiros já tinha sido notificado das ordens vindas do Exército.
—Como vocês podem ver eu tenho este pepino em mãos.
—Está tendo muitas dificuldades Coronel?
—A lapela é pesada Sr Joel, não basta eu cuidar do meu regimento ainda tenho que ser governador, prefeito e dependendo do caso psicólogo e conselheiro.
—Não podemos contar com a ajuda dos nativos para cuidar da cidade?
—Muitos nos ajudam, mas têm outros que muito se beneficiavam do governo anterior que estão realizando verdadeiros ataques nas redondezas da cidade.
—Sério isso? Disse em voz alta Melina.
—Não precisa se preocupar, infelizmente para eles e não para nós, suas forças remanescentes são bem reduzidas e quando ousam atacar o menor grupo de soldados brasileiros, são massacrados, felizmente não sofremos nenhuma baixa, no máximo uns feridos e um imbecil recém ingresso nas Forças Armadas que no desespero atirou no próprio pé…
Mas vamos ao que traz vocês aqui, como foram de viagem? Estas estradinhas parecidas com as romanas são lindas não são?
—São lindas, mas ainda prefiro o conforto do asfalto. Respondeu Joel.
—Lamento, mas vocês terão de singrar estes belos ladrilhos isso se não tiverem pela frente terra batida. Como vocês já estão fartos de saber, o governo de Sua Majestade decidiu, repetindo a história de outros grandes impérios que o nosso há de superar e por isso essa decisão foi tomada bem cedo, pela criação das primeiras unidades de tropas coloniais ou seja formadas por nativos em sua grande maioria.
—Já sabemos disso senhor, disse Melina.
—Ótimo, já sabem que seu regimento terá status de um comando? Não respondendo a nenhuma divisão e caso futuramente responda será a uma divisão de mesma natureza?
—Em parte sabemos, eu não sabia que uma divisão estava nos planos. Disse Joel.
—Uma ou mais divisões é um desejo, mas temos que começar com um regimento e isto já será uma peneira.
—Concordo de sua visão Coronel. Disse Joel.
—A base de vocês será aqui e em Forte São Jorge, parece estranho, mas tecnicamente não sou superior de vocês, mas estou aqui para auxiliar no que precisar.
—Quem é o nosso superior imediato? Indagou Melina.
—General de Divisão Cassius Westphalen Osório.
—O Governador Interino de Forte São Jorge? Fiquei sabendo por fora que o primo do Imperador o Príncipe D Luiz Phillipe irá em breve assumir o posto. Comentou Melina
—Sim, eu também ouvi por ai, aliás, tenho todos os livros do príncipe e lidos claro, mas voltando ao assunto vocês terão uma certa autonomia mas terão que reportar ao General por meio do comandante do local onde vocês estiverem, no caso vocês passarão para mim o progresso das missões e eu como um pombo—correio transmitirei para o Sr Cassius.
—E tem mais detalhado sobre nossa primeira missão? Porque pelo que entendi seremos pau para toda obra desde ajudar os mais fracos a abrir fogo nos mais fortes. Disse Melina.
—Há alguns dias apenas para testar a viabilidade, nós recebemos uns cartazes recrutando aventureiros prometendo um salário inicial de soldado, mas que para os padrões daqui é muito dinheiro… Comentou o oficial.
—Por isso aqueles dois nativos que foram para o Forte por acaso aceitaram de bom grado. Disse Joel.
—Coincidência? Acredito que cedo ou tarde isso ocorreria é como quando vem uma tempestade e alguém ignorando um cenário maior vai dizer que muita gente por coincidência se molhou ao mesmo tempo. A força da história é algo emanado pelo próprio Criador acredito que faz com que coisas como essa se encaixam no inesperado.
E é por isso que numa taverna que já vou anotar o endereço e marcar num mapa vocês vão encontrar tantos outros como aqueles novos amigos nativos que vocês fizeram na viagem e que após passarem por exames de rotina estão indo para o mesmo local.
—Exames? Disse ambos os veteranos.
—Sim exames, não está sabendo? O governo iniciou um projeto tão grandioso quanto encher de brasileiro está porra toda, toma me deram uns panfletos em português e yamareu explicando tudo leiam no caminho.
—Então devemos ir para esta taverna? Melina.
—É uma boa idéia.
Assim sendo os dois veteranos foram andando pelas ruas era por volta das 17 horas locais (a viagem para a cidade demorou um pouco e eles tinham comido pelo caminho) e aproveitaram a ida a Taverna que pertencia a um nativo para conhecerem aquela cidade.
Pelas ruas calçadas em pedra ou terra batida (estas logo receberiam asfalto enquanto as ladrilhadas após a instalação completa dos serviços de água e luz seriam reconstruídas tal como eram) a presença brasileira era sentida, em alguns muros havia pichações em vermelho ou branco para contrastar nos muros de cores escuras e nelas se podia ler mensagens como: NÃO PERMITIREMOS COMUNISTAS EM NOSSAS COLÔNIAS; A FORÇA DO IMPERADOR EMANA DO POVO E DELA O POVO SE ALIMENTA E FORTALECE, etc…
Finalmente chegaram ao estabelecimento sem nome, mas que tinha no “letreiro” uma placa de madeira esculpida no formato de uma tigela de sopa e uma generosa caneca de cerveja. Lá dentro o clima fervia e desta ferveção um ambiente paradoxal era servido.
Dentro daquele ambiente sempre movimentado, velas e lâmpadas elétricas contrastavam na missão de iluminar aquele ambiente escuro, as cervejas eram servidas logo após serem feitas e bem quentes, mas também tinha um refrigerador com latas e garrafas desta e outras bebidas alcoólicas vindas do Brazil. Ensopados de qualquer coisa e industrializados brasileiros se juntavam e se misturava no cardápio (a nova pedida do dia era um cozido de carne de caça salpicado com pedaços de pão de forma).
Gente de tudo que era canto talvez da existência se encontravam naquele lugar, naquelas mesas e madeiras rústicas cortadas mas não envernizadas e em meio aquele caleidoscópio que dizia “crianças voltem para casa” , se destacavam os bem vestidos de verde soldados brasileiros de folga (mas havia um ou outro idiota em serviço que não deveria estar lá…).
Tarbis e Zeblas pareciam já ter chegado e segurado uma mesa e não estavam sozinhos, com eles estava um elfo alto que como manda o clichê tinha pele clara e cabelos prateados, suas orelhas eram pontudas como uma seta e vestia uma túnica leve e atrás de sua cadeira um bem elaborado arco que mataria de inveja e cobiça qualquer mongol ou nômade das estepes euroasiaticas.
Havia um problema, nem Melina nem Joel sabia yamareu e Tarbis e Zeblas não sabiam português, como lidar com este problema…
 
—Olá vocês são os brasileiros que irão nos treinar? Prazer meu nome é Urdibios Brastiono, elfo do povo Anderlirgrakus a oeste daqui, mas tenho estado por esta região há um tempo.
Com olhos arregalados Melina e Joel em uma só voz perguntaram:
—E como aprenderam tão rapidamente nosso idioma?!!!!!!!!
Por baixo de sua túnica que abria em uma fina e comprida gola havia outra que parecia uma camisa e entre elas Urdibios retirou um objeto familiar a qualquer cidadão moderno: um smartphone.
—Com isso, gastei dois anos de recompensas que eu tinha comigo guardado para algo importante e me valeu a pena, incrível como esse objeto me ajuda muito.
—E onde você comprou isso?
—Como vocês dizem, em uma “banquinha de eletrônicos” uma aqui perto chamada “Olho de Sauron”.
Melina e Joel olharam um por outro e Joel disse:
Melina e Joel olharam um por outro e Joel disse:
—Olho de Sauron? Sério mesmo? Um brasileiro botou este nome na loja?
—Sim um brasileiro quem mais seria? E o que tem este nome? Parece bonito sonoro, do lado tinha uma barraquinha de doces chamado O Caldeirão furado…
Os dois brasileiros dão um tapa forte e dolorido na própria testa e solta baixinho um “puta que pariu”.
Ainda olhando um para o outro e falando baixinho continuaram:
—Ser humano é uma merda
—Brasileiro é pior ainda…
—E pior fomos nós que somos trouxa e arriscamos nossas vidas por eles…
Num gesto de amizade o elfo mostrou o smartphone para Joel que olhou devolveu e pensou:
—O fila da mãe comprou o modelo mais recente.
Meio que fazendo de interprete o novo amigo, ou melhor, recruta do regimento especial de aventureiros e junto de Joel, Melina, Tarbis e Zeblas, eles ficaram o final da tarde e boa parte da noite debatendo por onde começar a missão, onde achar mais aventureiros interessados em um “emprego de carteira assinada”, todos os detalhes de uma missão dada que não se tem a menor noção por onde ir.
Tudo isso com a ajuda do smartphone do Elfo que projetava em uma tela holográfica uma imagem baseada nas missões de mapeamento brasileiras e também nos mapas que os nativos possuíam.
Tecnologia de última geração, trazida como uma barragem a ponto de explodir pelo vórtice em um ambiente “medieval e de fantasia”.
Até parece um prato da cozinha indiana onde católicos, hindus e mulçumanos se sentam para comer em uma mesa pública.
E lá perto da taverna havia uma lojinha aberta logo após o início da ocupação brasileira, escrito em Português, Japonês, Inglês, Yamareu, Sikenesio e tempos depois na língua do sul, dizia o letreiro:
OLHO DE SAURON COMÉRCIO DE ELETRÔNICOS E MATERIAIS MÁGICOS.
電子と魔法材料の商取引、サウロンの目
Denshi to mahō zairyō no shōtorihiki, sauron no me
SAURON EYE TRADE OF ELETRONICS AND MAGICAL MATERIALS
MITA I SAURON EPORIO I ELETRONIKO RE ETI LICO IAGEA
CHIR SAURON TREMI ELETRONIKS ÉA GAR INNAR
 
Glossário e Notas:
C.A.E.S.A.R: Um obuseiro auto propulsado de fabricação francesa basicamente é uma peça de artilharia acoplada na carroceria de um caminhão adaptado ou fabricado para isso o que torna sua implementação relativamente barata sendo isso uma opção boa para o nascente exército colonial que dada a diferença tecnológica com os nativos sempre opta por armas mais baratas e menos complexas.
Metropole brasileira: Tal como na era das navegações e dos grandes impérios ultramaritimos se usa o termo Metropóle para se referir à parte principal do Império Brasileiro.
Lesa majestade: O império buscava ser uma democracia pautada em valores morais e cristãos, mas a perseguição contra republicanos ou partidários da antiga ordem republicana às vezes tinha ares tirânicos principalmente nas colônias que de certa forma eram protegidas pelas milícias dos partidos nacionalistas e monárquicos e onde qualquer suspeita de ameaça a dignidade imperial era logo combatida e lembrando que a relação brasileira com o imperador restaurado era diferente da que existia no primeiro império, lá a relação era algo próximo de fato as monarquias nórdicas agora na monarquia restaurada por mais que o monarca buscava manter o legado de humildade e simplicidade, o modelo seguido por muitos brasileiros da relação súdito—monarca era o visto no Japão no seu auge, isso foi uma conseqüência da crescente nipofilia fruto da cultura de mangás e animes e turbinada com o encurtamento da distância entre Brazil e Japão graças aos dois vórtices a ponto de um japonês radicado no Brazil comentar em tom de ironia: “Logo a embraer lança uma versão kamikaze do super tucano”
Outro indo mais pesado na analise disse: Se o Japão for atacado os brasileiros que não tratamos com tanto carinho nos obrigarão a permitir que eles morram por nós.
Lapela: A parte do uniforme em cima do ombro onde fica a insígnia da patente militar.
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Capítulo XLVIII