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Capítulo L: De soldado a pesquisador.
 
 
Eis a rotina de Gilmar de Leria Castanho 23 anos natural de Portugal, mesmo sendo um moleque recém entrado na fase adulta era um veterano de confrontos militares tanto na sua terra natal quando na terra que ele adotou, terra que surgiu no seio e ambição de sua terra natal. Gilmar era e poderia ser qualquer um e presenciou igual a tantos outros que são qualquer um a serie de eventos que ligou dois mundos e que respondeu uma grande quantidade de perguntas em troca de trazer tantas outras.
Gilmar é português, mas agora também é brasileiro, este sangue que impulsionou os pequenos barcos de madeira com velas de linho pintadas em vermelho com a Cruz da Ordem de Cristo, aqueles que zarpavam nelas iam à busca de novas terras, de novas riquezas e de espalhar a Boa Nova mesmo sabendo da grande chance de não voltar, mesmo sabendo que o mar tragaria ao acaso heróis e medíocres, experientes e novatos.
Este sangue que não desaparece nem se passar mil gerações empurraram os brasileiros para um dos portais que para eles foram abertos a este mundo e lançado estava Gilmar que com tantos outros não indo ao mesmo tempo, mas que cantavam quando chegavam, A Conquista do Paraíso. Alguns que diziam serem mais “fanáticos” se derramavam dos blindados do exército brasileiro no caso de serem soldados ou dos carros se eram civis e na companhia dos que lá iam a pé.
Despencavam—se de joelhos no chão, abriam os braços, agradeciam e rezavam. Pois o desejo latente de novas fronteiras finalmente por aquele tempo estava nos corações daqueles que fluíam de forma espontânea e quase desorganizada, embebido.
Gilmar fora tragado e agora estava após provar seus méritos e provando outros tantos, estava na capital de uma das principais nações daquele vasto mundo. Eis a rotina do lusitano, rotina está que se tardou em expor nestas páginas.
Seu dia começava logo após o nascer do Sol. Feita as necessidades matinais e vestido seu sempre presente uniforme do exército brasileiro no qual ostentava algumas condecorações ganhas em Portugal (as ganhas pela batalha de São Francisco Xavier de Tarl—harrel ainda não foram entregues e demorariam), caminhava até uma taberna onde lá tomava sua caneca matutina de uma bebida feita com a raiz amarela moída e torrada de uma planta semelhante a uma grama chamada de Sepyndrinia e que os brasileiros chamariam posteriormente de Laranja—Forte devido ao forte tom laranja escuro que ganhava a raiz moída após estar pronta para o consumo.
Tomada sua caneca diária desta bebida o português ia finalmente participar das aulas na Academia onde continuava se esforçando para compreender os costumes yamareus, sua filosofia e sua língua, já tinha começado a se dedicar ao estudo não só do alfabeto local, mas também da coleção de logogramas da chamada “escrita formal”.
Quando o sol estava a pico era hora de voltar às tabernas onde o mais pedido era uma espécie de sopão ou calda que ia toda sorte de legumes, carnes e condimentos chamado pelos nativos de ópis dia ou em português, necessário para o dia. (Os brasileiros principalmente os de Minas Gerais chamariam esse prato de Picadinho Yamareu).
A tarde é dedicada a mais estudos e principalmente condicionamento físico e militar, pois para os Yamareus o corpo tem que estar em conjunto com a mente e se espera dos homens e nem tanto das mulheres, (apesar de sua presença neste campo não ser rara) um conhecimento militar.
O tempo livre do lusitano era dedicado a estudos, descanso e sempre que possível, recebimento de recursos vindos de Forte São Jorge como baterias, munição (Gilmar sempre é impelido a mostrar o que sabe usando as modernas armas do seu mundo), dinheiro (em moeda local, estes valores recebidos não são descontados do soldo mas vem do orçamento estipulado para sua “missão”) além de arquivos com mensagens e notícias de casa. (Apesar de que parte dessas informações chegarem até ele por meio da internet sem fio propiciada pelas inúmeras sondas—balão que retransmitem até Yamaris a conexão de internet vinda de Forte São Jorge). Essas cargas eram entregues via drones.
—De soldado a aluno de intercambio. Pensava ele. Para não fazer seu tempo gasto em vão por aquelas bandas, ele se mobilizou para escrever uma espécie de estudo do que via naqueles dias, também se empenhava em traduzir ou transcrever livros e pergaminhos com o propósito nobre de vender os originais produzidos para editoras brasileiras ou estrangeiras e conseguir fazer um pé de meia.
Nas horas vagas, escrevia sobre as vestes dos homens e das mulheres, seus costumes na rua ou em casa. Pagava algumas moedas deixava de comer algo mais gostoso para que artistas espalhados por ai elaborassem ilustrações que seriam utilizadas por Gilmar nos seus escritos. Pagava por desenhos de paisagens, da vida privada, da arquitetura, da fauna urbana que para olhos estranhos pareciam fantásticas, mas para um nativo era cotidiana.
Era de se esperar que esse esforço por mais incrível, digno de se constar nos anais e merecedor de compensações financeiras gastasse a tríade que forma o “Eu” humano: Corpo mente e alma. Assim os dias livres eram muitas vezes gastos por Gilmar se não pesquisando nas ruas de Yamaris, ele gastava dormindo dando—lhe fama de retraído (estranho ele já era, pois era estrangeiro).
Às vezes Kuria o visitava em sonho para ver como estava sua mais nova aquisição. (“Virou súcubo agora porra?”). E sobre a parte “religiosa” o português estudava com muita curiosidade, mas mesmo assim estranhava as práticas religiosas locais fazendo—o reafirmar ainda mais a sua fé apesar de que ocasionalmente era acometido por um sentimento difícil de entender de culpa e isso o fazia fazer atos de penitência o que tornava a fé cristã algo também estranho aos olhos dos seus colegas.
(O que deixa ainda mais estranho é que os fundadores do Império de Yamaris eram originalmente cristãos católicos e ortodoxos e que essas fés ainda são praticadas de forma privativa por meia dúzia de famílias nobres.)
E assim os dias se sucederam até que desejoso de que Gilmar manifestasse uma gratidão pela hospitalidade, o Imperador Apolonius o enviou junto das tropas enviadas para proteger um porto do ataque de tropas de Galba o outro pretendente ao trono.
Call to arms.
 
NOTAS E GLOSSÁRIO:
 
The Conquest of Paradise: Essa canção feita para o filme sobre Cristovão Colombo que comemora os 500 anos de sua expedição é uma das canções favoritas do autor e uma das que inspiram essa presente obra foi composta pelo grego Vangelis e sim a música é maravilhosa, melhor que o filme.
Sobre o estilo de narrativa: As Crônicas foram pensadas como uma coletânea ficcional de histórias como se alguém ou várias pessoas no futuro tivessem recolhido os relatos e amarrados como num almanaque por isso o autor tenta às vezes mudar a forma como a história é contada e é por isso que eventualmente alguns fatos se contradizem.
Culinária: A culinária ficcional da Mesogeia daria um livro a parte até tentei, mas não virou. (Nota pessoal do autor).
Cristianismo: Prometo abordar a questão do cristianismo na Mesogeia antes da chegada dos brasileiros assim que conseguir achar um espaço na trama.
 
“Conteúdo extra”
Um texto compilado de um dos pergaminhos e que foi incluindo por Gilmar em um dos livros que ele estava editando:
Inferno na fartura de Leonidas Viv Zargonioroff escrito por volta do ano 297 da Sétima Era.
Já dizia um texto escrito no final da sexta era e trazido a nós pelos ditos deuses: A opulência não é o remédio supremo para todos os males que o sangue e a mente afligem. Se fosse os grandes reis viveriam por todo o sempre e mesmo aqueles que têm o amor de um deus uma hora deixam este mundo.
Há pessoas que mesmo estando em meio a situações confortáveis se mantêm infelizes e as razões são muitas, como sentimento de culpa por estar em situação boa e outros estarem em situação pior, sentimento de culpa por ser considerar fracos também por viver em situação confortável. Também essas pessoas não conseguem conviver consigo mesmas estando a cada dia lutando contra seus vícios, medos e demônios interiores.
Assim por mais que tenham acesso confortável a recursos elas vivem um verdadeiro inferno mental. Há alguns teóricos que dizem que o ser humano e também as raças humanóides que conosco habitam este mundo, vivem um mundo de penitencia e uma das formas que os deuses ou o que existir além deles utilizam para penitenciar nossas almas fracas é a de ser infeliz, de ter sofrimento mesmo aparentemente vivendo no paraíso.
É algo interessante e até mesmo assustadora pensar que há a possibilidade da infelicidade em um ambiente onde teria a possibilidade da felicidade e conforto. Isso só mostra o tão nebulosa é a alma dos seres que foram abençoados pela inteligência e o tão longe nós simples mortais de encontrar uma luz.
Pois não há castigo maior do que ter muito e ser infeliz. Ter tudo e ou achar que merece mais ou achar que não merece nada, muitos relatam o sentimento do porco gordo em meio ao caos outros relatam sobre pessoas que movidas por isso se sacrificaram de forma estúpida e inútil tendo inclusive em alguns lugares se lançado sem o conhecimento de seus familiares, em sacrifícios aos deuses.
Sobre este ponto registrasse a história do nobre que para aplacar a ira da natureza que ameaçava trazer fome para aqueles que viviam em suas terras, se incendiou.
Não pretendo nem pretendia, pois isso não existe, trazer a cura para estes males aqui testemunhados, mas fico em meu intento deixar registrado para na esperança futura algum iluminado trazer alento e conforto as gerações que virão depois dele.
 
 
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Capítulo L